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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Violência na Arqueologia portuguesa

O Debate da guerra primitiva pré-histórica pela Arqueologia (recente) portuguesa

No estudo da guerra a Arqueologia tem responsabilidades acrescidas pois é o registo mais directo, por vezes o único, da caminhada do Homem. Noutros ramos do saber, a guerra e as suas origens, são tema de debate há já algum tempo com Escolas, hipóteses e teorias baseadas numa discussão que ultrapassa fronteiras e disciplinas.

Na Arqueologia só a partir da década de noventa é que realmente temos alguma discussão sobre a guerra na Pré-História.

Na Arqueologia portuguesa temos alguns investigadores que têm publicado, dentro e fora de Portugal, em português e inglês, no entanto o debate tem sido escasso e isolado.

Temos então as obras em que os autores abordam a guerra (ou não) pré-histórica no território que hoje é Portugal.

Uma continuação do trabalho iniciado em 1994:

JORGE, Susana Oliveira (2005) – O passado é redondo: dialogando com os sentidos dos primeiros recintos monumentais. Porto: Edições Afrontamento.

Para os recintos monumentais do Calcolítico :“Assim, a simples existência, num espaço, de delimitações constrangedoras do movimento dos indivíduos teria, forçosamente de criar condições físicas potencialmente significativas da negociação de poder, intra e intercomunitário, negociação essa que de modo algum se pode reduzir a uma função caricaturalmente identificada com defesa-ataque.”. Jorge (2005, p. 52).

Um pioneiro lá fora:

OOSTERBEEK, Luiz (1997) – War in the Chalcolithic? The meaning of Western Mediterranean Chalcolithic Hillforts.

In CARMAN, John, ed (1997) – Material harm. Glasgow: Cruithne Press.

Sobre as fortificações no Calcolítico:

"Anthropologists suggested, a long time ago, that population increases generates increasing endogenous conflit and tension (Lévi-Strauss 1980), and from it emerging elites tend to consolidate their status not only trought armed repression, but by ideological means, as religious activities, prestige goods, or unproductive public works. I believe that this is what the hillforts are all about.". Oosterbeek (1997, p.126)

Uma obra de referência:

JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.

Com os contributos de:

FERNÁNDEZ-POSSE, M. Dolores; IGNACIO MONTERO (1998) – Una visión de la metalurgia atlântica en el interior de la Península Ibérica. p. 218-230.

SENNA-MARTINEZ, João Carlos de (1998) – Produção, ostentação e redistribuição: Estrutura Social e Economia Política no grupo Baiões/Santa Luzia. p. 218-230.

Para a Idade do Bronze do norte de Portugal: “…os sítios de habitat principais, longe de serem sedes de confrontos militares, opondo-se entre si, funcionariam então como garantes de um equilíbrio regional, qual situação de paz armada, possibilitando uma mútua cooperação que permitisse o funcionamento regular de mecanismos de circulação de pessoas e bens indispensáveis ao sistema de wealth finance que pensamos fundamentaria a economia e o poder das elites locais.” Senna-Martinez (1998, p. 222)

SOARES, Joaquina; SILVA, Carlos Tavares da (1998) – From the collapse of the chalcolithic mode of production to the development of the Bronze age societies in the south-west of Iberian península. p. 231-245.

Acerca do povoamento Cacolítico no Sudoeste da Península Ibérica: “The Chalcolithic in South-West Iberia…mode of production developed in the context of the Secondary Products revolution (Sherrat, 1983, p. 234)…that began in the Late Neolithic, in the second half of the IV millennium cal BC…were crucial for accumulating a significant surplus which created favorable conditions for demographic growth, an increase of sedentism, the first forms of proto-urbanism and forms of negative interaction (warfare).” Soares e Silva (1998, p. 233)

VILAÇA, Raquel (1998) – Hierarquização e conflito no Bronze Final da Beira Interior. p. 302-317.

Para a Idade do bronze do Norte de Portugal temos:

“O equilíbrio latente ao nível dessas relações só pode ser correlacionado com hostilidades ou rivalidades controladas, inerentes aos poderosos e próprias de qualquer tipo de vizinhança. O poder não estava, com efeito, na ponta das lanças ou no gume das espadas, mas no jogo de constrangimentos imposto pela ostentação de determinados bens e pelo simbolismo guerreiro que, por si só, intimida (Bourdieu, 1989)”. Vilaça (1998, p. 213)

Não posso deixar de mencionar:

GONÇALVES, Vítor (2000) – Cobre, RPS e Fortificações na Centro e Sul de Portugal. Arqueologia 2000.

In Balanço de um século de investigação arqueológica em Portugal.

De novo para o Calcolítico: “…a transição do 4º para o 3º milénio no centro e Sul de Portugal teve um significado paradigmático e se tratou efectivamente de um momento concreto em que comunidades neolíticas tardias, de pastores e pequenos agricultores, defrontaram grupos detentores das tecnologias da RPS, obrigando-os a construírem fortificações onde sentiriam seguros os seus excedentes e, naturalmente, eles próprios. Continuo convencido que o significado simbólico é, na maioria destes casos, nulo ou muito restrito, sendo o económico e estratégico definitivamente importante, a destruição e a reconstrução de torres e panos de muralha não parece ter a ver com simbolismos revistos ou acrescidos, mas com a tradução de efectivos confrontos, originando reparações pontuais ou mesmo revisões estratégicas dos dispositivos defensivos.”. Gonçalves (2000, p. 95)

A empresa ERA Arqueologia destacou a guerra na Pré-História no tema da sua revista, abordando vários aspectos desta problemática com o contributo de investigadores internacionais com trabalho reconhecido nesta área. Não posso deixar de frisar que esta publicação pioneira na abordagem e tema resultou do esforço de uma empresa de Arqueologia.

Revista da ERA, Arqueologia (2000) – A Guerra na Pré-História Peninsular. 2.

Com os contributos de:

CARMAN, John (2000) – War in Prehistoric Societies: a review of some current ideas. p.143- 152.

KUNST, Michael (2000) – A Guerra no Calcolítico na Península Ibérica. p. 128-142.

Acerca das fortificações calcolíticas:

“As construções defensivas destes povoados implicam um grande investimento em mão-de-obra, e os locais em que se implantam, muitas vezes em terrenos altos traziam problemas…de abastecimento…tudo devia ser transportado para cima…o motivo deve ter sido a guerra. Só por esta razão se percebem todas as obras verificadas em várias fortificações calcolíticas, realizadas ampliações, reparações ou modificações das estruturas defensivas.”. Ainda segundo este autor no Zambujal podemos identificar algumas evoluções técnicas nas estruturas defensivas com o enchimento de pátios e bastiões com terra e pedras de modo a criar plataformas elevadas que permitem o ataque de cima, temos também a construção de torres ocas no pano da muralha que permitem a melhor visibilidade e defesa desta. Kunst (2000, p. 136 e 137)

MARTÍNEZ PEÑARROYA, José (2000) – Del Conflicto Primitivo a la Guerra Organizada: aspectos Bélicos de la Edad del Bronce Peninsular. p. 153-164.

MATEO SAURA (2000) – La Guerra en la Vida de las Comunidades Epipaleolíticas del Mediterráneo Peninsular. p. 110- 127.

Um artigo com uma leitura multidisciplinar das pontas de seta:

VENTURA, José; SENNA-MARTINEZ, João (2001) – Do conflito à guerra: Aspectos do desenvolvimento e institucionalização da violência na Pré-História Recente Peninsular. Turres Vetras (História Militar e Guerra). V.

Resumido em Pontas de seta

Criticado no Forum em Pontas de seta - discussão

Mais um trabalho internacional:

FREIRE, José (2005) – Weaponry, statues and petroglyphs: the ideology of war in Atlantic Iron Age Iberia. In PEARSON, Mike Parker; TORPE, I. J. N., eds – Warfare, violence and slavery in Prehistory. BAR Internacional Series, 1374, p.195-200.

O debate (de novo sobre as fortificações) está na Internet e nomeadamente no Blog Trans-ferir e na Lista Archport, destaco a entrada de Jorge (14 de Junho de 2007, 12.00 horas) com o título Seteiras… para dar tiros no pé, e o seguinte trecho:

“…torres de menagem dos castelos, dispositivo mais muçulmano que cristão – torres essas que eram essencialmente um dispositivo simbólico, e talvez de observação à distância (imagino eu), o que seria já uma interessante forma de “poder” sobre o território – constituiriam uma autêntica “armadilha para ratos”, quer dizer, se o castelo fosse tomado e o senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sai de lá vivo.”

Discussão
A minha Definição de guerra primitiva pré-histórica:
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um assunto colectivo e sem hipótese de compensação.
As Formas de guerra primitiva pré-histórica:
-A Batalha campal - (figuras)
Guerra primitiva pré-histórica que a meu ver teve uma elevada Frequência e um importante papel nas sociedades pré-históricas e na sua evolução.


Em Portugal temos autores que defendem uma guerra primitiva pré-histórica a partir do 4º milénio baseando-se no aparecimento de fortificações em pedra:
- "...a transição do 4º para o 3º milénio no centro e Sul de Portugal ......mas com a tradução de efectivos confrontos....." Gonçalves (2000, p. 95).
- "...in South-West Iberia......that began in the Late Neolithic, in the second half of the IV millennium cal BC... forms of negative interaction (warfare)." Soares e Silva (1998, p. 233).
- "...Calcolítico na Península Ibérica...o motivo deve ter sido a guerra..."Kunst (2000, p. 136).


Esta origem da guerra no Calcolítico da Península Ibérica, entre diferentes comunidades, por uma acumulação de excedentes resultante da revolução de produtos secundários, parece-me pouco plausível:
- Acho importante uma melhor definição, por parte dos autores, de que guerra estamos a falar, sob que formas e com que frequência, Só assim podemos partir para as funções desta guerra na sociedade e o seu papel na evolução das mesmas (e temos aqui o busilis de toda esta problemática).
- Coloco desde já uma questão: os excedentes existiam desde o início da domesticação e agricultura no Neolítico, no entanto as sociedades mantiveram-se (supostamente) igualitárias até ao Calcolítico?
- Pela Bioantropologia chegam-nos evidências de guerra primitiva pré-histórica europeia de um passado tão distante como o Mesolítico (com, por exemplo, Thorpe, 1999 e 2003) ou o Neolítico (com, por exemplo, Guillaine e Zammit, 2002).
- Para a Península Ibérica algumas evidências (por exemplo: Sima de los Huesos ou Bóbila Madurell).
- Evidências encontradas apesar de rituais destrutivos para as ossadas como a cremação neolítica.
- Existe também a hipótese de muitas das armas consideradas como grave goods e encontradas nas sepultura neolíticas terem lá chegado dentro das ossadas (Palomo i Pérez e Gibaja Bao, 2003, p.179).
- A Arte Rupestre Levantina, certamente anterior ao Calcolítico, tem muitas representações de guerra pré-histórica primitiva.
- A construção de sistemas defensivos tão evoluídos teve que ser antecedido por outros mais simples (logo mais difíceis de encontrar no registo arqueológico, madeira por exemplo), esta situação aconteceu entre os Maori (Keegan, 1994, p. 103-106).


Outros autores portugueses não encontram, nos recintos murados da Península Ibérica, evidências de grande frequência de guerra primitiva pré-histórica:
- "...longe de serem sedes de confrontos militares...funcionariam então como garantes de um equilíbrio regional, qual situação de paz armada..." Senna-Martinez (1998, p. 222).
- "O poder não estava, com efeito, na ponta das lanças ou no gume das espadas, mas no jogo de constrangimentos imposto pela ostentação de determinados bens e pelo simbolismo guerreiro que, por si só, intimida (Bourdieu, 1989)” Vilaça (1998, p. 213).
- "...emerging elites tend to consolidate their status not only trought armed repression, but by ideological means, as religious activities, prestige goods, or unproductive public works." Oosterbeek (1997, p.126).
- "..negociação essa que de modo algum se pode reduzir a uma função caricaturalmente identificada com defesa-ataque.”Jorge (2005, p. 52).
- “…torres de menagem dos castelos, dispositivo mais muçulmano que cristão – torres essas que eram essencialmente um dispositivo simbólico, e talvez de observação à distância (imagino eu), o que seria já uma interessante forma de “poder” sobre o território – constituiriam uma autêntica “armadilha para ratos”, quer dizer, se o castelo fosse tomado e o senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sai de lá vivo.” Jorge (Blog Trans-Ferir,14 de Junho de 2007, 12.00 horas).


Concordo com o ritual que envolve o mundo bélico e com as sua inúmeras funções. No mesmo sentido penso que os recintos murados têm um grande significado simbólico. Agora temos evidências de que seriam efectivamente funcionais. Passo a apresentar os meus argumentos:

- De novo a necessidade de definições, formas e frequência da guerra primitiva pré-histórica, ou será que pura e simplesmente não existia?
- De novo as evidências da Biontropologia e da Arte Rupestre Levantina.
- Quanto à Fortificação (recintos murados) e evidências de guerra primitiva pré-histórica:Nunes (2005, p. 119) define fortificação como: "Expressão genérica que designa todos os trabalhos e obras de defesa militar…ciência ou arte de fortificar…O termo engloba não só as fortalezas mas ainda todos os meios e obras de valorização do terreno para fins defensivos como as abatizes, cavalos de frisa, covas de lobo, armadilhas, paliçadas, remoções de terra, fossos e outras…".
Para Harding (2003, p. 287): "Los poblados com fortificaciones son la primera muestra de conflictos y agresiones intergrupales, pero también hay que tener en cuenta los poblados con restos de incendio e de esqueletos sin un enterramiento formal.".
Segundo Aranda Jiménez e Sánchez Romero (2005, p. 184), entre 3000-2500 a.C., na Península Ibérica, temos novas estratégias defensivas com diferentes níveis de complexidade: sítios em localizações naturalmente defensáveis; construções de muralhas de pedra que protegem as zonas mais acessíveis destes sítios; bastiões e torres construídos nestas muralhas; fortes localizados em locais estratégicos com controle visual do território; entradas dos sítios fortemente defendidas; sistemas complexos de fossos defensivos.
Kunst (2000, p. 136) acerca das fortificações calcolíticas: "As construções defensivas destes povoados implicam um grande investimento em mão-de-obra, e os locais em que se implantam, muitas vezes em terrenos altos traziam problemas…de abastecimento…tudo devia ser transportado para cima…o motivo deve ter sido a guerra. Só por esta razão se percebem todas as obras verificadas em várias fortificações calcolíticas, realizadas ampliações, reparações ou modificações das estruturas defensivas.".
"Uma força militar pequena, dentro de uma fortificação e com mantimentos, é extremamente perigosa, encontra-se protegida contra ataques podendo lançar os seus contra-ataques, nunca perdendo controle do território. O seu valor militar aumenta em relação a um exército em campo aberto. Uma força atacante tem que ser mais numerosa para poder cercar uma fortificação e tem sempre o tempo contra si (campanhas realizadas nas estações do ano mais amenas), encontra-se em território hostil e em constante busca de mantimentos. Se uma força atacante não possuir armas de ataque às muralhas as hipóteses de conquistar a fortificação são diminutas (como exemplo temos os Maori e os Mongóis). A afirmação "...uma autêntica "armadilha para ratos", quer dizer, se o castelo fosse tomado e se um senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sair de lá vivo."(Jorge, 14 de Junho de 2007, Blog Trans-Ferir) parece-me estranha.Uma torre faz parte de um sistema defensivo, se o castelo for tomado pode ser a última chance de sobrevivência dos sitiados, uma segunda linha de defesa. Resumindo, o objectivo é não sair de lá." Recibos (Blog Trans-Ferir, 7 de Março de 2008, 20.37 horas).
Temos então:
- Habitats
estrategicamente localizados em locais com defesas naturais ou com boa visibilidade.
- Existência de
terras de ninguém entre diferentes territórios.
- Existência de inter visibilidade entre habitats.
- Habitats que controlam rotas ou recursos.
- Reparação e evolução de sistemas defensivos:
"....a destruição e a reconstrução de torres e panos de muralha não parece ter a ver com simbolismos revistos ou acrescidos, mas com a tradução de efectivos confrontos, originando reparações pontuais ou mesmo revisões estratégicas dos dispositivos defensivos.” Gonçalves (2000, p. 95).
Delibes de Castro e Santiago Pardo (1997, p. 92) descrevem a evolução do sistema defensivo do Zambujal, no Calcolítico da Estremadura portuguesa: no início temos a protecção de um recinto central com torres maciças de 6 metros de diâmetro e 4 de altura, unidas por muralhas e 1-2 metros de espessura, envolvidas por mais duas linhas de muralhas; depois a fortaleza é ampliada e reforçada no seu sector mais exposto e as três linhas de muralhas ganham mais estruturas defensivas como torres maciças e bastiões ocos, o acesso ao segundo recinto é limitado; num momento seguinte temos uma mudança táctica em que as linhas defensivas ganham autonomia, as estruturas são reforçadas e os acessos limitados, os bastiões tornam-se mais maciços e os muros mais espessos, o reduto nuclear atinge os 15 metros de espessura, nesta cidadela a defesa como a ser exercida a partir da parte superior em amplas plataformas; numa última fase temos a incorporação de mais bastiões mas começa o movimento de contracção desta fortaleza.
Segundo Kunst (2000, p. 137) no Zambujal podemos identificar algumas evoluções técnicas nas estruturas defensivas com o enchimento de pátios e bastiões com terra e pedras de modo a criar plataformas elevadas que permitem o ataque de cima, temos também a construção de torres ocas no pano da muralha que permitem a melhor visibilidade e defesa desta.
- Sistemas defensivos funcionais (pouco estéticos ou monumentais):
- Bastiões ou torres nas muralhas.Nunes (2005, p. 233) traz-nos torre: "…construção prismática ou cilíndrica colocada principalmente nas quebras de direcção dos muros, a defender as entradas ou nos muros muito extensos da cerca da fortaleza…Era normalmente mais alta do que a muralha em que está inserida e permitia o flanqueamento desta pela diminuição dos ângulos mortos de visão ou o reforço de pontos de pontos de zonas de difícil defesa…".
- Muralhas, por vezes com várias cinturas.Nunes (2005, p. 180) define muralha: "Muro construído normalmente de pedra, ladrilho ou taipa que constituía a defesa de uma fortaleza ou de uma povoação e que, pela sua altura, espessura e disposição, se destinava a evitar o seu escalonamento, destruição…". Nunes traz-nos ainda paliçada: "Defesa exterior formada por estacas cravadas verticalmente no terreno, muito próximas umas das outras e ligadas entre si para constituírem uma estrutura firme…".
- Seteiras (inicio da discussão, continuação, Los Millares e Zambujal)
- Fortes dependentes de povoados maiores.
- Sinais de destruição dos habitats.- Concentração de armas em locais suspeitos.
Mercer (2004, p. 152) traz-nos a seguinte leitura sobre a fortificação de Crickley Hill no Neolítico da Grã-Bretanha: "This phase Id enclosure also seems to have met a violent end. A massive concentration of leaf arrowheads lies along the line of the palisade, with dense clustering of over 400 arrowheads in the two entrances. This enclosure seems to have been the target of intensive and probably tactically marshaled archery".
Segundo Aranda Jiménez e Sánchez Romero (2005, p.188) temos um pormenor interessante: "Workshops specializing exclusively in arrowhead production have been found in Fort 1 at Los Millares (Molina et. al. 1986; Ramos et. al. 1991)…".
- Ossadas humanas em locais pouco próprios nos habitats.
Cardoso (1991, p. 80-81), acerca do habitat calcolítico de Leceia, relata o achado das ossadas e dois indivíduos numa zona de lixeira, estes indivíduos são do sexo masculino que o autor pensa tratarem-se dos de um grupo de atacantes.


Referências:DELIBES DE CASTRO, Germán; SANTIAGO PARDO, Jorge (1997) – Las fortificaciones de la Edad del cobre en la Peninsula Ibérica. In Garcia, J. A.; antona del vale; eds – La guerra en la anteguedad: una aproximación al origen de los ejércitos. Madrid: Ministerio de Defensa. p. 85-107.
CARDOSO, João Luís (1991) – Estudos Arqueológicos de Oeiras. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras. 2º Volume.
ARANDA JIMÉNEZ, Gonzalo; SÁNCHEZ ROMERO, Margarita (2005) – The origins of warfare: later prehistory in southeastern Iberia. In PEARSON, Mike Parker; TORPE, I. J. N., eds – Warfare, violence and slavery in Prehistory. BAR Internacional Series, 1374, p.181-194.
GONÇALVES, Vítor (2000) – Cobre, RPS e Fortificações na Centro e Sul de Portugal. Arqueologia 2000.
GUILAINE, Jean; ZAMMIT, Jean (2002) - Le sentier de la guerre : visages de la violence préhistorique. Paris: Éditions du Seuil.
JORGE, Susana Oliveira (2005) – O passado é redondo: dialogando com os sentidos dos primeiros recintos monumentais. Porto: Edições Afrontamento.
KUNST, Michael (2000) – A Guerra no Calcolítico na Península Ibérica. Era- Arqueologia. 2, p. 128-142.
MERCER, R. J. (2004) – The origins of warfare in the British Isles. In CARMAN, John; HARDING, Anthony, eds – Ancient warfare. Gloucestershire: Sutton Publishing, p.143-156.
NUNES, antónio Lopes Pires (2005) – Dicionário de arquitectura militar. Vale de Cambra: Caleidoscópio.
OOSTERBEEK, Luiz (1997) – War in the Chalcolithic? The meaning of Western Mediterranean Chalcolithic Hillforts. In CARMAN, John, ed (1997) – Material harm. Glasgow: Cruithne Press.
PALOMO I PÉREZ, Antoni; GIBAJA BAO, Juan Francisco (2003) – Análisis tecnomorfológica/funcional i experimental de las puntes de flexta. In La costa de can Martorell (Dosrius, El Marcéeme). Laietania. 14, p. 179-214.
SENNA-MARTINEZ, João Carlos de (1998) – Produção, ostentação e redistribuição: Estrutura Social e Economia Política no grupo Baiões/Santa Luzia. p. 218-230. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.
SOARES, Joaquina; SILVA, Carlos Tavares da (1998) – From the collapse of the chalcolithic mode of production to the development of the Bronze age societies in the south-west of Iberian península. p. 231-245. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.
THORPE, I. J. N. (2003) – Anthropology, archaeology and the origin of warfare. World Archaeology (The Social Commemoration of Warfare). 35: 1, p.145-165.
VENTURA, José; SENNA-MARTINEZ, João (2001) – Do conflito à guerra: Aspectos do desenvolvimento e institucionalização da violência na Pré-História Recente Peninsular. Turres Vetras (História Militar e Guerra). V.
VILAÇA, Raquel (1998) – Hierarquização e conflito no Bronze Final da Beira Interior. p. 302-317. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.