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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Saturday, 23 May 2009

O Equus

A domesticação da natureza pelo Homem tem sido fundamental para a sua evolução, do trigo ao cão, o Homem tirou proveito da natureza e mudou com ela. O Equus sempre fascinou o Homem foi caçado (Salutra, França, 10 000 BP), esculpido (Vogelherd, Alemanha, 30 000 BP) e desenhado (Altamira e Foz Côa, Península Ibérica, 20 000 BP). A partir de certo momento a relação tornou-se diferente, deixou de ser só uma fonte de alimento, começou a ser usado com força motriz, produzindo mais força que o próprio boi, mas foi enquanto montada que se destacou. O seu papel de montada levou-o a uma proximidade com o cavaleiro que criou uma relação sentimental, alterou o estatuto de quem o montava e o modo como os homens se enfrentavam. Temos testemunhos da domesticação do Equus na Arte, documentos escritos, contextos funerários (Equus enterrados com equipamentos), nos artefactos relacionados com a sua domesticação, pela Arqueozoologia podemos observar: os tamanhos dos ossos e as proporções destes nos contextos arqueológicos; na estrutura das populações e a sua distribuição geográfica; nas patologias como a existência de bitwear, que consiste em marcas dos arreios nos dentes, ou outras patologias nas vértebras de Equus que parecem demonstrar que foi montado (Levine, 2000, p. 1-2).
Dereivka na Ucrânia (4500-3500 a.C.) parece ser uma das primeiras zonas de domesticação do Equus cabalus (Guilaine e Zammit, 2002, p. 231), no entanto ainda não temos consenso quanto a estes dados. Segundo Zdanovich e Zdanovich apud Levine (2000, p. 3), a cultura funerária com carros de Sintashta no Sul dos Urais (2000 a.C.), apresenta os primeiros cavalos domesticados, com a presença de restos destes nas sepulturas e de artefactos associados à tracção e montaria dos mesmos. Outros Equus tiveram um papel na guerra como força de tracção de carros de combate de quatro rodas, estes aparecem no Estandarte de Ur (2500 a.C.), na Suméria, o onagro (Equus hemionus onager) parece ser o animal representado (Dawson, 2001, p.83-85). No início do II milénio, o carro aparece já com melhorias técnicas, temos um carro de duas rodas, mais pequeno (podendo até ser carregado quando necessário) e mais rápido (puxado por Equus caballus), este tipo de carro espalha-se por todo o Mediterrâneo e torna-se a velocidade dos exércitos, participa em todas as grandes expansões, dos Indo-Europeus aos Hicsos, torna-se a arma de eleição da nobreza que o pode sustentar (Moorey, 1986, p. 196-215). Ainda segundo este autor, as armas mais usadas pelas equipagens dos carros eram as javalinas e o arco, no entanto o próprio carro podia ter aparelhos de guerra, a equipagem de um carro de combate podia ter até três guerreiros com as funções de condutor, lançador de projécteis, um terceiro podia proteger os demais com um escudo. Na Europa Continental os carros parecem ter sido uma importação, parte da cultura funerária e um símbolo de prestígio e status. Segundo Guilaine e Zammit (2002, p. 229), entre os sécs. IX e VIII a.C., temos vários carros cerimoniais, os autores destacam o Carro Solar de Trundhohm (1300 a.C.).
Na Península Ibérica temos as primeiras representações de carros nas estelas do Sudoeste do Bronze Final, estes carros podem ter duas ou quatro rodas e parecem são puxados por animais muito esquematizados, estes parecem ser cavalos mas podem ser outros animais de tracção (Osgood et al., 2000, p. 55). Gostava de referir também o carro representado na gruta do Escoural em Portugal que poderá datar do Bronze Final. A primeira prova material da domesticação do cavalo na Península Ibérica chega-nos com a descoberta do que parece ser parte de um arnês (compõe o equipamento de montar a cavalo), em Fuente Alamo (Almeria), datando de 1300 a. C., por Fernández Manzano e Montero Ruiz (1997, p. 117) apud Osgood et al. (2000, p. 55). Ainda segundo este autor temos outros elementos do equipamento de montar a cavalo, em Lavorsi (Lerida), datando do Bronze Final; a primeira representação em que temos claramente um cavaleiro vem de Cingle de la Gasulla (Catellón) e data do séc.XII a.C.; temos também no povoado de Cerro de la Encina, do Bronze Final, vários ossos de cavalo que podem ter significado ritual; e ainda, do séc. VII-VI a.C., o carro funerário de Joya (Huelva).
A propósito do impacto do cavalo na guerra primitiva temos o exemplo da América do Norte, com a introdução do cavalo a frequência da guerra aumentou, o aumento da mobilidade e alcance provocou uma reorganização de fronteiras, os raids podiam agora alcançar várias centenas de milhas, os cavalos tornaram-se um recurso valioso que podia ser roubado, o comércio de longo alcance desenvolveu-se, os povoados juntaram-se e fortificaram-se, começou a existir mais diferenciação social e algumas tribos começaram a expandir-se (Leblanc e Register, 2004).

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