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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Saturday, 8 January 2011

Violência e Etnografia: Aborígenes Australianos

Os Aborígenes habitam as terras mais inóspitas da Austrália, formam bandos de caçadores-recolectores que não tinham conhecimento metalúrgicos até à chegada dos ingleses.
Entre os grupos aborígenes australianos encontram-se várias formas de violência interpessoal como duelos, raids e batalhas campais (Harris, 2004; Keeley, 1997; Leblanc e Register, 2004, Otterbein, 2004).
O Etnógrafo Warner, no princípio do séc.XX, estudou os Murger e recolheu terminologia para seis tipos de guerra diferentes entre este povo (Leblanc e Register, 2004, p. 123).
Os duelos que têm como objectivo resolver situações individuais e impedir atritos mais graves, funcionam como válvula de escape, por vezes acabam por escalar para batalhas campais pois os jovens dos grupos não se conseguem controlar (Warner apud Keeley, 1997, p. 149).
Buckley, que viveu 32 anos entre os Wathaurong no início do séc. XIX, descreve a existência de feuds, batalhas campais, massacres na forma de raids nocturnos, o medo constante de ataques, a necessidade de alianças e traições dos aliados (Leblanc e Register, 2004, p. 114-115 e 122-123). Entre os Murngin do Norte da Austrália, 28% das mortes de homens adultos deviam-se a baixas no campo de batalha (Warner apud Harris, 2004, p. 426).
Nas expedições contra grupos vizinhos os guerreiros são eleitos por um conselho de anciões, estas expedições têm como objectivo a vingança, conseguir mulheres, disputas por território ou lugares sagrados, conquista de recursos nomeadamente água.
Existe uma forma de homicídio ritual, em que são os próprios companheiros da vítima que a assassinam ou chamam um grupo vizinho para o fazer, funciona então como um sistema de justiça.
Segundo Leblanc e Register (2004, p. 121), os Aborígenes têm vários artefactos exclusivos para a violência interpessoal. Temos armas defensivas, muitos tipos de escudos que variam consoante a região, variam também na forma e função. As armas ofensivas de arremesso, um tipo de bumerangue mais pesado que termina em forma de garra, lanças e propulsores (woomera). Temos também uma arma ofensiva de mão, uma moca de madeira que por vezes tem um pico de pedra.
Os Aborígenes mostram ter algumas tácticas nos seus raids, existe mesmo o registo de um grupo simular uma fuga num confronto, levando os perseguidores para uma emboscada, onde esperavam mais elementos escondidos.
Segundo Tacon e Chippendale apud Otterbein (2004, p. 73), a Arte rupestre é uma fonte de informação para a guerra entre os Aborígenes, esta abarca um período de 6000 anos e permite reconhecer uma evolução na maneira de lutar deste povo.
A Arqueologia tem ajudado a demonstrar que os Aborígenes tinham territórios que defendiam, existiam mesmo terras de ninguém entre esses territórios que serviam também como zonas de trocas (Leblanc e Register, 2004, p. 122).

Bibliografia:
HARRIS, Marvin (2004) – Introducción a la Antropologia general. Madrid: Alianza Editorial. 7.ª Edición.
KEELEY, Lawrence (1997) - War before civilization: The myth of the
peaceful savage. Oxford: Oxford University Press.
LEBLANC, Steven A.; REGISTER, Katherine E. (2004) – Constant battles: the myth of the peaceful, noble savage. New York: St. Martin’s Griffin.
OTTERBEIN, Keith F. (2004) – How war began. College Station: Texas A&M University Press.

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