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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Monday, 27 April 2009

O Debate da guerra primitiva pré-histórica pela Arqueologia (recente) portuguesa

por Luis Lobato de Faria

No estudo da guerra a Arqueologia tem responsabilidades acrescidas pois é o registo mais directo, por vezes o único, da caminhada do Homem. Noutros ramos do saber, a guerra e as suas origens, são tema de debate há já algum tempo com Escolas, hipóteses e teorias baseadas numa discussão que ultrapassa fronteiras e disciplinas.
Na Arqueologia só a partir da década de noventa é que realmente temos alguma discussão sobre a guerra na Pré-História.
Na Arqueologia portuguesa temos alguns investigadores que têm publicado, dentro e fora de Portugal, em português e inglês, no entanto o debate tem sido escasso e isolado.
Temos então as obras em que os autores abordam a guerra (ou não) pré-histórica no território que hoje é Portugal.

Uma continuação do trabalho iniciado em 1994:
JORGE, Susana Oliveira (2005) – O passado é redondo: dialogando com os sentidos dos primeiros recintos monumentais. Porto: Edições Afrontamento.
Para os recintos monumentais do Calcolítico :“Assim, a simples existência, num espaço, de delimitações constrangedoras do movimento dos indivíduos teria, forçosamente de criar condições físicas potencialmente significativas da negociação de poder, intra e intercomunitário, negociação essa que de modo algum se pode reduzir a uma função caricaturalmente identificada com defesa-ataque.”. Jorge (2005, p. 52).


Um pioneiro lá fora:
OOSTERBEEK, Luiz (1997) – War in the Chalcolithic? The meaning of Western Mediterranean Chalcolithic Hillforts.
In CARMAN, John, ed (1997) – Material harm. Glasgow: Cruithne Press.
Sobre as fortificações no Calcolítico:
"Anthropologists suggested, a long time ago, that population increases generates increasing endogenous conflit and tension (Lévi-Strauss 1980), and from it emerging elites tend to consolidate their status not only trought armed repression, but by ideological means, as religious activities, prestige goods, or unproductive public works. I believe that this is what the hillforts are all about.". Oosterbeek (1997, p.126)


Uma obra de referência:
JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.
Com os contributos de:


FERNÁNDEZ-POSSE, M. Dolores; IGNACIO MONTERO (1998) – Una visión de la metalurgia atlântica en el interior de la Península Ibérica. p. 218-230.


SENNA-MARTINEZ, João Carlos de (1998) – Produção, ostentação e redistribuição: Estrutura Social e Economia Política no grupo Baiões/Santa Luzia. p. 218-230.
Para a Idade do Bronze do norte de Portugal: “…os sítios de habitat principais, longe de serem sedes de confrontos militares, opondo-se entre si, funcionariam então como garantes de um equilíbrio regional, qual situação de paz armada, possibilitando uma mútua cooperação que permitisse o funcionamento regular de mecanismos de circulação de pessoas e bens indispensáveis ao sistema de wealth finance que pensamos fundamentaria a economia e o poder das elites locais.” Senna-Martinez (1998, p. 222)


SOARES, Joaquina; SILVA, Carlos Tavares da (1998) – From the collapse of the chalcolithic mode of production to the development of the Bronze age societies in the south-west of Iberian península. p. 231-245.
Acerca do povoamento Cacolítico no Sudoeste da Península Ibérica: “The Chalcolithic in South-West Iberia…mode of production developed in the context of the Secondary Products revolution (Sherrat, 1983, p. 234)…that began in the Late Neolithic, in the second half of the IV millennium cal BC…were crucial for accumulating a significant surplus which created favorable conditions for demographic growth, an increase of sedentism, the first forms of proto-urbanism and forms of negative interaction (warfare).” Soares e Silva (1998, p. 233)


VILAÇA, Raquel (1998) – Hierarquização e conflito no Bronze Final da Beira Interior. p. 302-317.
Para a Idade do bronze do Norte de Portugal temos:
“O equilíbrio latente ao nível dessas relações só pode ser correlacionado com hostilidades ou rivalidades controladas, inerentes aos poderosos e próprias de qualquer tipo de vizinhança. O poder não estava, com efeito, na ponta das lanças ou no gume das espadas, mas no jogo de constrangimentos imposto pela ostentação de determinados bens e pelo simbolismo guerreiro que, por si só, intimida (Bourdieu, 1989)”. Vilaça (1998, p. 213)


Não posso deixar de mencionar:
GONÇALVES, Vítor (2000) – Cobre, RPS e Fortificações na Centro e Sul de Portugal. Arqueologia 2000.
In Balanço de um século de investigação arqueológica em Portugal.
De novo para o Calcolítico: “…a transição do 4º para o 3º milénio no centro e Sul de Portugal teve um significado paradigmático e se tratou efectivamente de um momento concreto em que comunidades neolíticas tardias, de pastores e pequenos agricultores, defrontaram grupos detentores das tecnologias da RPS, obrigando-os a construírem fortificações onde sentiriam seguros os seus excedentes e, naturalmente, eles próprios. Continuo convencido que o significado simbólico é, na maioria destes casos, nulo ou muito restrito, sendo o económico e estratégico definitivamente importante, a destruição e a reconstrução de torres e panos de muralha não parece ter a ver com simbolismos revistos ou acrescidos, mas com a tradução de efectivos confrontos, originando reparações pontuais ou mesmo revisões estratégicas dos dispositivos defensivos.”. Gonçalves (2000, p. 95)


A empresa ERA Arqueologia destacou a guerra na Pré-História no tema da sua revista, abordando vários aspectos desta problemática com o contributo de investigadores internacionais com trabalho reconhecido nesta área. Não posso deixar de frisar que esta publicação pioneira na abordagem e tema resultou do esforço de uma empresa de Arqueologia.
Revista da ERA, Arqueologia (2000) – A Guerra na Pré-História Peninsular. 2.


Com os contributos de:
CARMAN, John (2000) – War in Prehistoric Societies: a review of some current ideas. p.143- 152.


KUNST, Michael (2000) – A Guerra no Calcolítico na Península Ibérica. p. 128-142.
Acerca das fortificações calcolíticas:
“As construções defensivas destes povoados implicam um grande investimento em mão-de-obra, e os locais em que se implantam, muitas vezes em terrenos altos traziam problemas…de abastecimento…tudo devia ser transportado para cima…o motivo deve ter sido a guerra. Só por esta razão se percebem todas as obras verificadas em várias fortificações calcolíticas, realizadas ampliações, reparações ou modificações das estruturas defensivas.”. Ainda segundo este autor no Zambujal podemos identificar algumas evoluções técnicas nas estruturas defensivas com o enchimento de pátios e bastiões com terra e pedras de modo a criar plataformas elevadas que permitem o ataque de cima, temos também a construção de torres ocas no pano da muralha que permitem a melhor visibilidade e defesa desta. Kunst (2000, p. 136 e 137)


MARTÍNEZ PEÑARROYA, José (2000) – Del Conflicto Primitivo a la Guerra Organizada: aspectos Bélicos de la Edad del Bronce Peninsular. p. 153-164.


MATEO SAURA (2000) – La Guerra en la Vida de las Comunidades Epipaleolíticas del Mediterráneo Peninsular. p. 110- 127.


Um artigo com uma leitura multidisciplinar das pontas de seta:
VENTURA, José; SENNA-MARTINEZ, João (2001) – Do conflito à guerra: Aspectos do desenvolvimento e institucionalização da violência na Pré-História Recente Peninsular. Turres Vetras (História Militar e Guerra). V.
Resumido em Pontas de seta
Criticado no Forum em Pontas de seta - discussão


Mais um trabalho internacional:
FREIRE, José (2005) – Weaponry, statues and petroglyphs: the ideology of war in Atlantic Iron Age Iberia. In PEARSON, Mike Parker; TORPE, I. J. N., eds – Warfare, violence and slavery in Prehistory. BAR Internacional Series, 1374, p.195-200.


O debate (de novo sobre as fortificações) está na Internet e nomeadamente no Blog Trans-ferir e na Lista Archport, destaco a entrada de Jorge (14 de Junho de 2007, 12.00 horas) com o título Seteiras… para dar tiros no pé, e o seguinte trecho:
“…torres de menagem dos castelos, dispositivo mais muçulmano que cristão – torres essas que eram essencialmente um dispositivo simbólico, e talvez de observação à distância (imagino eu), o que seria já uma interessante forma de “poder” sobre o território – constituiriam uma autêntica “armadilha para ratos”, quer dizer, se o castelo fosse tomado e o senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sai de lá vivo.”

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