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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Wednesday, 8 April 2009

O paralelo entre as sociedades pré-históricas e sociedades primitivas históricas e contemporâneas

por Luis Lobato de Faria


O paralelo entre a guerra nas sociedades primitivas históricas e contemporâneas e a guerra nas sociedades pré-históricas tem sido motivo de debate.
Um ponto de vista sobre esta problemática parte de Ferguson e Whitehead (1992, p. 26-27) que chamam a atenção para o impacto das sociedades europeias na guerra indígena e respectivos relatos de guerra primordial: "…(1) that the effects of expanding states, and particularly of European colonialism, typically precede extensive descriptions of indigenous warfare, so that far the greater part of our ethnographic information about nonstate warfare is postcontact; and (2) that very frequently the result of state impingement is to generate warfare and transform its conduct and purpose, rather than to suppress it…".
Gostava de frisar que se as sociedades europeias trazem a guerra também podem trazer a paz (de novo o debate Hobbes versus Rousseau) como por exemplo aconteceu no caso dos Inuit com a Real Policia Montada do Canadá ou no caso dos Kung! com a Policia Bechuanaland / Botswana (Keeley, 1997, p. 29).
Outro aspecto importante é o facto da Antropologia Social recorrer a relatos históricos (que não deixam de ser etnográficos), estes mencionam comportamentos anteriores ao contacto com as sociedades estatais europeias, nas palavras de Leblanc e Register (2004): "Anthropologists look for evidence by using information found in historical documents, including written accounts by early explorers or visitors to a particular region.".
Temos por exemplo o relato de Staden (1557) apud Dennen (1995, p. 60), este marinheiro naufragou nas costas da América do Sul e viveu com os Tupinamba, no seu livro descreve os costumes de guerra deste povo.
As fontes etnográficas antropológicas devem ser cruzadas com dados da Linguística (no caso dos Kung! por exemplo) e principalmente com dados da Arqueologia, que nos chegam pela Arte (dos Aborígenes australianos), pela cultura material e habitats (dos Inuit) ou pela Bioantropologia (por exemplo o massacre de Crow Creek, no Dakota do Sul, em 1325 d.C. segundo Keeley, 1997, p. 67-69).
Nas palavras de Vandkilde (2006a, p.111): "To achieve clearer answers about the relationship of non-state societies to violence and warfare archaeological prehistoric sources have to be consulted and compared to anthropological evidence.".
Para Keeley (1997, p. 23-24): "…is vital to study the direct effects o precivilized conflict…requires careful surveillance of both ethnographic and archaeological data…with special attention to questions of how recent tribal and ancient prehistoric warfare was actually conducted…".
O paralelo entre a guerra das sociedades primitivas históricas e contemporâneas e a guerra das sociedades pré-históricas é a meu ver válido e usado por vários autores.
Otterbein (2004, p. 15-21) usa várias técnicas na interpretação da informação arqueológica. Segundo este autor esta interpretação consiste no que Marcus e Flannery chamam de bridging arguments, a ligação entre dados arqueológicos e a estrutura teórica, esta ligação pode ir da simples analogia etnográfica até complexos métodos de inferência. Otterbein define então quatro métodos que usam a informação etnográfica: analogia etnográfica implícita (avaliação dos dados através do senso comum, por exemplo se temos uma sepultura com armas então temos um guerreiro e guerra na sua cultura), aproximação histórica directa (junta a informação etnográfica e histórica da área onde se desenvolvem as escavações, este método assume uma ligação directa dos dados etnográficos com os vestígios arqueológicos da cultura em estudo), analogia etnográfica explicita em relação a bases etnográficas mundiais (os antropólogos dividiram as sociedades etnográficas em categorias como bando, tribo ou chefado, dentro destas categorias as características das diferentes sociedades são semelhantes, os arqueólogos determinam categorias para as sociedades dentro do período em estudo e inferem que estas faziam o mesmo que as sociedades etnográficas, o autor frisa dois problemas nesta analogia, a dificuldade em definir a categoria das sociedades estudadas pela arqueologia e o facto de estas poderem ter diferentes comportamentos), o método de Etnologia de Murdock (utiliza uma amostra retirada de um universo de sociedades não literárias, a partir daqui testam-se hipótese e teorias, se estas são suportadas pela amostra então podemos ter uma norma de comportamento humano que pode ser transportada para as sociedades pré-históricas, estes cross-cultural studies proporcionam frequências de características culturais e relações entre características para sociedades com o mesmo nível de complexidade sociopolítica que as sociedades estudadas pela Arqueologia).
Segundo Harding (2003, p. 272): "…en el registro histórico y etnográfico de sociedades pre-estatales de escala pequeña, se pueden señalar muchos casos de lo que parece ser agresión de grupos contra vecinos…". Harding compara estes ataques com o que se passou na Idade do Bronze Europeia, ataques de pequena escala que valorizavam o guerreiro. Para este autor: "…Estos asuntos están estrechamente relacionados con el desarrollo de los sistemas sociales, y concretamente con la evolución de las jefaturas. Con los cambios hacia una organización social claramente mas compleja que la tribal…".
Vários autores mencionam as semelhanças entre as sociedades históricas e contemporâneas a as sociedades pré-históricas numa perspectiva evolucional.
Para Meyer apud Myers (2005, p. 15): "Regarding the development on the nature of war and even on the nature of society, ethnographic accounts on these more primitive societies progressively gained more importance. It seemed that ethnography could in fact provide knowledge about very distant historical phases, witch all human societies had passed through in their evolution".
Segundo Kelly (2000, p. 133): "…the organizational characteristics deduced for early Upper Paleolithic society are essentially the characteristics of unsegmented foraging societies…".
Nas palavras de Hooff apud Myers (2005, p.15): "If one examines the phenomena of group aggression and war from a comparative perspective, then primitive warfare deserves special attention, that is war fought in human communities who still live under socio-ecological conditions not too different from those to witch our species most have been subjected during its millions year long evolutionary process. These conditions undoubtedly most resemble those of the present-day primitive hunter-gatherers.".
Segundo Dawson (2001, p.57): "The general patterns of tribal warfare are well known and there is no reason to think they were different in the Stone Age.".
Podemos estabelecer um paralelo entre a guerra das sociedades primitivas históricas e contemporâneas e a guerra das sociedades pré-históricas recorrendo aos dados da Antropologia Social na forma de relatos etnográficos e históricos. As sociedades pré-históricas devem ser definidas dentro de tipos comuns aos das sociedades primitivas e comparadas dentro desses tipos. Esta é uma perspectiva evolucionista que assume uma evolução social comum a toda a humanidade e respostas semelhantes (respostas óptimas) a problemas semelhantes. Os dados da Antropologia social devem ser retirados de cross-cultural studies que permitem uma leitura de maior âmbito e de cariz estatístico. Estes dados são valorizados pelo cruzamento com outras disciplinas, principalmente com a Arqueologia. A influência das sociedades estatais nos relatos etnográficos, a dificuldade em determinar o tipo de sociedade pré-histórica e os diferentes caminhos que o comportamento humano pode tomar, são problemas a ter em conta.


Referências:
DAWSON doyne (2001) – The first armies. London: Cassel & Co.
DENNEN, John Matheus Gerardus van der (1995) – The Origin of War: The Evolution of a Male Coalitional Reproductive Strategy. Groningen: Origin Press.
FERGUSON, R. brian, ed.; WHITEHEAD, Neil L. ed. (1992) – War in the tribal zone. Santa Fé: School of American Research Press.
HARDING, A. F. (2003) – Sociedades Europeas en la edad del Bronce. Barcelona: Editorial Barcelona. 1.ª Edición.
KEELEY, Lawrence (1997) - War before civilization: The myth of thepeaceful savage. Oxford: Oxford University Press.
KELLY, Raymond C. (2000) – Warless societies and the origin of war. Ann Arbor: University of Michigan Press
MYERS, Darryl (2005) – War before history: a critical survey. Florida State University, College of Arts and Sciences.
OTTERBEIN, Keith F. (2004) – How war began. College Station: Texas A&M University Press.
VANDKILDE, Helle (2006b) – Warriors and warrior institutions in Copper age Europe. In OTTO, Ton; et. al., eds – Warfare and society: archaeological and social anthropological perspectives. Arhus: Aarhus University Press, p. 393-422.

5 comments:

Anonymous said...

Isto de pôr no mesmo saco todo o tipo de sociedades armadas com arcos, chamando-lhes primitivas (as de hoje) e pré-históricas (se já desapareceram) é patético. E eu que pensava que os darwinistas sociais tinham todos nascido no séc. XIX. Porque não publica estes textos em livro, ou numa revista académica?

Numa terra lá distante said...

O meio de divulgação mais dinâmico que temos é a internet como tal as minhas "publicações" aqui estão.
Felizmente "bebo" de muitas correntes, da discussão de todas elas é que nasce o conhecimento.
As minhas referências estão no post acima, a sua referência ( o "patético") não conheço.

ArtemInvenite Manuel de Castro Nunes said...

O abuso de comentários anónimos que se tornou corrente em ambiente cibernáutico continua a suscitar a minha ponderação sobre se as raízes profundas psico-sociais deste hábito não constituem, por si, uma disciplina.
Quando se trata de comentários de natureza ideológica ou científica, não gostaríamos todos de saber com qum estamos a comentar um assunto e de prosseguir com naturalidade a abordagem das questões?
Manuel de Castro Nunes

chamussy said...

l'auteur soutient la thèse que l'on doit comparer les sociétés préhistoriques et les sociétés ethnologiques pour étudier la guerre dans les sociétés primitives.
c'est une opinion respectable et assez répandue mais je ne la partage pas entièremment. c'est en effet un pari dangereux de partir d'un tel paradigme pour étudier la guerre chez les chasseurs cueilleurs et les chefferies préhistoriques alors que toutes les sociétés ethnologiques ont été connues APRES le contact (comme souligné par Ferguson). c'est de plus une démarche évolutionniste au sens étroit du terme. cela dit l'analogie ethnologique a de la valeur mais uniquement à titre heuristique.
vincent chamussy

Numa terra lá distante said...

http://violenceprehistory.blogspot.com/2009/08/resposta-vincent-chamussy.html