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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Wednesday, 29 April 2009

Discussão - O Debate da guerra primitiva pré-histórica pela Arqueologia (recente) portuguesa

por Luis Lobato de Faria
Discussão também no Forum


A minha Definição de guerra primitiva pré-histórica:
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um assunto colectivo e sem hipótese de compensação.
As Formas de guerra primitiva pré-histórica:
-A Batalha campal - (figuras)
Guerra primitiva pré-histórica que a meu ver teve uma elevada Frequência e um importante papel nas sociedades pré-históricas e na sua evolução.


Em Portugal temos autores que defendem uma guerra primitiva pré-histórica a partir do 4º milénio baseando-se no aparecimento de fortificações em pedra:
- "...a transição do 4º para o 3º milénio no centro e Sul de Portugal ......mas com a tradução de efectivos confrontos....." Gonçalves (2000, p. 95).
- "...in South-West Iberia......that began in the Late Neolithic, in the second half of the IV millennium cal BC... forms of negative interaction (warfare)." Soares e Silva (1998, p. 233).
- "...Calcolítico na Península Ibérica...o motivo deve ter sido a guerra..."Kunst (2000, p. 136).


Esta origem da guerra no Calcolítico da Península Ibérica, entre diferentes comunidades, por uma acumulação de excedentes resultante da revolução de produtos secundários, parece-me pouco plausível:
- Acho importante uma melhor definição, por parte dos autores, de que guerra estamos a falar, sob que formas e com que frequência, Só assim podemos partir para as funções desta guerra na sociedade e o seu papel na evolução das mesmas (e temos aqui o busilis de toda esta problemática).
- Coloco desde já uma questão: os excedentes existiam desde o início da domesticação e agricultura no Neolítico, no entanto as sociedades mantiveram-se (supostamente) igualitárias até ao Calcolítico?
- Pela Bioantropologia chegam-nos evidências de guerra primitiva pré-histórica europeia de um passado tão distante como o Mesolítico (com, por exemplo, Thorpe, 1999 e 2003) ou o Neolítico (com, por exemplo, Guillaine e Zammit, 2002).
- Para a Península Ibérica algumas evidências (por exemplo: Sima de los Huesos ou Bóbila Madurell).
- Evidências encontradas apesar de rituais destrutivos para as ossadas como a cremação neolítica.
- Existe também a hipótese de muitas das armas consideradas como grave goods e encontradas nas sepultura neolíticas terem lá chegado dentro das ossadas (Palomo i Pérez e Gibaja Bao, 2003, p.179).
- A Arte Rupestre Levantina, certamente anterior ao Calcolítico, tem muitas representações de guerra pré-histórica primitiva.
- A construção de sistemas defensivos tão evoluídos teve que ser antecedido por outros mais simples (logo mais difíceis de encontrar no registo arqueológico, madeira por exemplo), esta situação aconteceu entre os Maori (Keegan, 1994, p. 103-106).


Outros autores portugueses não encontram, nos recintos murados da Península Ibérica, evidências de grande frequência de guerra primitiva pré-histórica:
- "...longe de serem sedes de confrontos militares...funcionariam então como garantes de um equilíbrio regional, qual situação de paz armada..." Senna-Martinez (1998, p. 222).
- "O poder não estava, com efeito, na ponta das lanças ou no gume das espadas, mas no jogo de constrangimentos imposto pela ostentação de determinados bens e pelo simbolismo guerreiro que, por si só, intimida (Bourdieu, 1989)” Vilaça (1998, p. 213).
- "...emerging elites tend to consolidate their status not only trought armed repression, but by ideological means, as religious activities, prestige goods, or unproductive public works." Oosterbeek (1997, p.126).
- "..negociação essa que de modo algum se pode reduzir a uma função caricaturalmente identificada com defesa-ataque.”Jorge (2005, p. 52).
- “…torres de menagem dos castelos, dispositivo mais muçulmano que cristão – torres essas que eram essencialmente um dispositivo simbólico, e talvez de observação à distância (imagino eu), o que seria já uma interessante forma de “poder” sobre o território – constituiriam uma autêntica “armadilha para ratos”, quer dizer, se o castelo fosse tomado e o senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sai de lá vivo.” Jorge (Blog Trans-Ferir,14 de Junho de 2007, 12.00 horas).


Concordo com o ritual que envolve o mundo bélico e com as sua inúmeras funções. No mesmo sentido penso que os recintos murados têm um grande significado simbólico. Agora temos evidências de que seriam efectivamente funcionais. Passo a apresentar os meus argumentos:

- De novo a necessidade de definições, formas e frequência da guerra primitiva pré-histórica, ou será que pura e simplesmente não existia?
- De novo as evidências da Biontropologia e da Arte Rupestre Levantina.
- Quanto à Fortificação (recintos murados) e evidências de guerra primitiva pré-histórica:
Nunes (2005, p. 119) define fortificação como: "Expressão genérica que designa todos os trabalhos e obras de defesa militar…ciência ou arte de fortificar…O termo engloba não só as fortalezas mas ainda todos os meios e obras de valorização do terreno para fins defensivos como as abatizes, cavalos de frisa, covas de lobo, armadilhas, paliçadas, remoções de terra, fossos e outras…".
Para Harding (2003, p. 287): "Los poblados com fortificaciones son la primera muestra de conflictos y agresiones intergrupales, pero también hay que tener en cuenta los poblados con restos de incendio e de esqueletos sin un enterramiento formal.".
Segundo Aranda Jiménez e Sánchez Romero (2005, p. 184), entre 3000-2500 a.C., na Península Ibérica, temos novas estratégias defensivas com diferentes níveis de complexidade: sítios em localizações naturalmente defensáveis; construções de muralhas de pedra que protegem as zonas mais acessíveis destes sítios; bastiões e torres construídos nestas muralhas; fortes localizados em locais estratégicos com controle visual do território; entradas dos sítios fortemente defendidas; sistemas complexos de fossos defensivos.
Kunst (2000, p. 136) acerca das fortificações calcolíticas: "As construções defensivas destes povoados implicam um grande investimento em mão-de-obra, e os locais em que se implantam, muitas vezes em terrenos altos traziam problemas…de abastecimento…tudo devia ser transportado para cima…o motivo deve ter sido a guerra. Só por esta razão se percebem todas as obras verificadas em várias fortificações calcolíticas, realizadas ampliações, reparações ou modificações das estruturas defensivas.".
"Uma força militar pequena, dentro de uma fortificação e com mantimentos, é extremamente perigosa, encontra-se protegida contra ataques podendo lançar os seus contra-ataques, nunca perdendo controle do território. O seu valor militar aumenta em relação a um exército em campo aberto. Uma força atacante tem que ser mais numerosa para poder cercar uma fortificação e tem sempre o tempo contra si (campanhas realizadas nas estações do ano mais amenas), encontra-se em território hostil e em constante busca de mantimentos. Se uma força atacante não possuir armas de ataque às muralhas as hipóteses de conquistar a fortificação são diminutas (como exemplo temos os Maori e os Mongóis). A afirmação "...uma autêntica "armadilha para ratos", quer dizer, se o castelo fosse tomado e se um senhor fosse cercado na torre com a sua soldadesca, teria pouca possibilidade de sair de lá vivo."(Jorge, 14 de Junho de 2007, Blog Trans-Ferir) parece-me estranha.Uma torre faz parte de um sistema defensivo, se o castelo for tomado pode ser a última chance de sobrevivência dos sitiados, uma segunda linha de defesa. Resumindo, o objectivo é não sair de lá." Recibos (Blog Trans-Ferir, 7 de Março de 2008, 20.37 horas).
Temos então:
- Habitats
estrategicamente localizados em locais com defesas naturais ou com boa visibilidade.
- Existência de
terras de ninguém entre diferentes territórios.
- Existência de inter visibilidade entre habitats.
- Habitats que controlam rotas ou recursos.
- Reparação e evolução de sistemas defensivos:
"....a destruição e a reconstrução de torres e panos de muralha não parece ter a ver com simbolismos revistos ou acrescidos, mas com a tradução de efectivos confrontos, originando reparações pontuais ou mesmo revisões estratégicas dos dispositivos defensivos.” Gonçalves (2000, p. 95).
Delibes de Castro e Santiago Pardo (1997, p. 92) descrevem a evolução do sistema defensivo do Zambujal, no Calcolítico da Estremadura portuguesa: no início temos a protecção de um recinto central com torres maciças de 6 metros de diâmetro e 4 de altura, unidas por muralhas e 1-2 metros de espessura, envolvidas por mais duas linhas de muralhas; depois a fortaleza é ampliada e reforçada no seu sector mais exposto e as três linhas de muralhas ganham mais estruturas defensivas como torres maciças e bastiões ocos, o acesso ao segundo recinto é limitado; num momento seguinte temos uma mudança táctica em que as linhas defensivas ganham autonomia, as estruturas são reforçadas e os acessos limitados, os bastiões tornam-se mais maciços e os muros mais espessos, o reduto nuclear atinge os 15 metros de espessura, nesta cidadela a defesa como a ser exercida a partir da parte superior em amplas plataformas; numa última fase temos a incorporação de mais bastiões mas começa o movimento de contracção desta fortaleza.
Segundo Kunst (2000, p. 137) no Zambujal podemos identificar algumas evoluções técnicas nas estruturas defensivas com o enchimento de pátios e bastiões com terra e pedras de modo a criar plataformas elevadas que permitem o ataque de cima, temos também a construção de torres ocas no pano da muralha que permitem a melhor visibilidade e defesa desta.
- Sistemas defensivos funcionais (pouco estéticos ou monumentais):
- Bastiões ou torres nas muralhas.
Nunes (2005, p. 233) traz-nos torre: "…construção prismática ou cilíndrica colocada principalmente nas quebras de direcção dos muros, a defender as entradas ou nos muros muito extensos da cerca da fortaleza…Era normalmente mais alta do que a muralha em que está inserida e permitia o flanqueamento desta pela diminuição dos ângulos mortos de visão ou o reforço de pontos de pontos de zonas de difícil defesa…".
- Muralhas, por vezes com várias cinturas.
Nunes (2005, p. 180) define muralha: "Muro construído normalmente de pedra, ladrilho ou taipa que constituía a defesa de uma fortaleza ou de uma povoação e que, pela sua altura, espessura e disposição, se destinava a evitar o seu escalonamento, destruição…". Nunes traz-nos ainda paliçada: "Defesa exterior formada por estacas cravadas verticalmente no terreno, muito próximas umas das outras e ligadas entre si para constituírem uma estrutura firme…".
- Seteiras (inicio da discussão, continuação, Los Millares e Zambujal)
- Fortes dependentes de povoados maiores.
- Sinais de destruição dos habitats.
- Concentração de armas em locais suspeitos.
Mercer (2004, p. 152) traz-nos a seguinte leitura sobre a fortificação de Crickley Hill no Neolítico da Grã-Bretanha: "This phase Id enclosure also seems to have met a violent end. A massive concentration of leaf arrowheads lies along the line of the palisade, with dense clustering of over 400 arrowheads in the two entrances. This enclosure seems to have been the target of intensive and probably tactically marshaled archery".
Segundo Aranda Jiménez e Sánchez Romero (2005, p.188) temos um pormenor interessante: "Workshops specializing exclusively in arrowhead production have been found in Fort 1 at Los Millares (Molina et. al. 1986; Ramos et. al. 1991)…".
- Ossadas humanas em locais pouco próprios nos habitats.
Cardoso (1991, p. 80-81), acerca do habitat calcolítico de Leceia, relata o achado das ossadas e dois indivíduos numa zona de lixeira, estes indivíduos são do sexo masculino que o autor pensa tratarem-se dos de um grupo de atacantes.


Nota:
No futuro espero fazer uma abordagem dos seguintes temas: Impacto da domesticação do Equus; Mecanismos de assalto às fortificações; Armas; Outras formas de Arte; Papel das Associações tribais guerreiras no aparecimento das élites.
A acrescentar info da Bioantropologia (Eugénia Cunha, Miguel Telles Antunes,...), de autores estrangeiros da Peninsula ou sobre a Peninsula.

Referências:
ARANDA JIMÉNEZ, Gonzalo; SÁNCHEZ ROMERO, Margarita (2005) – The origins of warfare: later prehistory in southeastern Iberia. In PEARSON, Mike Parker; TORPE, I. J. N., eds – Warfare, violence and slavery in Prehistory. BAR Internacional Series, 1374, p.181-194.
DELIBES DE CASTRO, Germán; SANTIAGO PARDO, Jorge (1997) – Las fortificaciones de la Edad del cobre en la Peninsula Ibérica. In Garcia, J. A.; antona del vale; eds – La guerra en la anteguedad: una aproximación al origen de los ejércitos. Madrid: Ministerio de Defensa. p. 85-107.
CARDOSO, João Luís (1991) – Estudos Arqueológicos de Oeiras. Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras. 2º Volume.
GONÇALVES, Vítor (2000) – Cobre, RPS e Fortificações na Centro e Sul de Portugal. Arqueologia 2000.
GUILAINE, Jean; ZAMMIT, Jean (2002) - Le sentier de la guerre : visages de la violence préhistorique. Paris: Éditions du Seuil.
JORGE, Susana Oliveira (2005) – O passado é redondo: dialogando com os sentidos dos primeiros recintos monumentais. Porto: Edições Afrontamento.
KUNST, Michael (2000) – A Guerra no Calcolítico na Península Ibérica. Era- Arqueologia. 2, p. 128-142.
MERCER, R. J. (2004) – The origins of warfare in the British Isles. In CARMAN, John; HARDING, Anthony, eds – Ancient warfare. Gloucestershire: Sutton Publishing, p.143-156.
NUNES, antónio Lopes Pires (2005) – Dicionário de arquitectura militar. Vale de Cambra: Caleidoscópio.
OOSTERBEEK, Luiz (1997) – War in the Chalcolithic? The meaning of Western Mediterranean Chalcolithic Hillforts. In CARMAN, John, ed (1997) – Material harm. Glasgow: Cruithne Press.
PALOMO I PÉREZ, Antoni; GIBAJA BAO, Juan Francisco (2003) – Análisis tecnomorfológica/funcional i experimental de las puntes de flexta. In La costa de can Martorell (Dosrius, El Marcéeme). Laietania. 14, p. 179-214.
SENNA-MARTINEZ, João Carlos de (1998) – Produção, ostentação e redistribuição: Estrutura Social e Economia Política no grupo Baiões/Santa Luzia. p. 218-230. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.
SOARES, Joaquina; SILVA, Carlos Tavares da (1998) – From the collapse of the chalcolithic mode of production to the development of the Bronze age societies in the south-west of Iberian península. p. 231-245. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.
THORPE, I. J. N. (2003) – Anthropology, archaeology and the origin of warfare. World Archaeology (The Social Commemoration of Warfare). 35: 1, p.145-165.
VENTURA, José; SENNA-MARTINEZ, João (2001) – Do conflito à guerra: Aspectos do desenvolvimento e institucionalização da violência na Pré-História Recente Peninsular. Turres Vetras (História Militar e Guerra). V.
VILAÇA, Raquel (1998) – Hierarquização e conflito no Bronze Final da Beira Interior. p. 302-317. In JORGE, S. O., ed.(1998) – Existe uma Idade do Bronze Atlântico. Sociedade, Hierarquização e Conflito. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 218-230.

6 comments:

Vitor Oliveira Jorge said...

Como é evidente e todos sabem, a questão do conflito e da guerra tem longa tradição na filosofia ocidental, prendendo-se muito com a velha questao (mítica) da "natureza humana", por um lado, e por outro com a questão (também mítica, de certo modo) da ideologia do evolucionismo cultural. O problema, aberto a muitas perspectivas como é evidente, só se contorna, do meu ponto de vista, pelo estdo dos pensadores que estão FORA da arqueologia e da antropologia, onde a crise é grande desde s anos 70 do séc. XX, com a crise do processualismo. Não se trata de encontrar nenhuma chave miraculosa, trata-se de tomar consciência de que a teoria do conflito, da guerra, etc, transvasam da arqueologia e da antropologia tal como elas foram criadas pela consciência europeia (a do capitalismo industrial) no séc. XIX. Daí o curso que estou a dar na FLUP sobre o pensamento crítico contemporâneo. Para se ser arqueólogo, tem de ser se ser algo mais do que o tradicional arqueólogo, mesm praticando a mais rigorosa metodologia. Mas é claro que isso está confinado aos poucos que ainda vão tendo disponibilidade de tempo e financeira para poder ler e pensar. Mas há que fazer um esforço nesse domínio e desde logo é de saudar que se debatam todos os assuntos. Eu sou um ignorante. Todos somos muito ignorantes. Estes assuntos são mesmo mito complexos, mplicam uma formação filosófica. E essa falta à maior ºarte de nós, tanto cá. como lá fora. Cordiais saudações
Vitor Oliveira Jorge

Numa terra lá distante said...

Um dos objectivos deste blog é precisamente a discussão entre as diferentes ciências. Agora a Arqueologia é fundamental na recolha de evidências da Pré-História (interpretações à parte).
Talvez as respostas estejam dentro de nós.........

Anonymous said...

Acho curioso como por vezes se fala dos "tempos antigos", como se a humanidade então fosse assim tão diferente da de agora... não vivem as sociedades humanas permanentemente envolvida em conflitos e guerras, mesmo em pleno século XXI? Mesmo países ditos "civilizados", como os países da Europa, em quantos conflitos bélicos estiveram envolvidos recentemente? E Portugal não se fundou através da guerra contra castelhanos e árabes? Não se impôs no Oriente, fazendo uso da superioridade militar que tinha então, fundando assim o seu império? Não tivemos que lutar várias vezes pela restauração da independência ou contra franceses, holandeses e espanhóis nos séculos seguintes? Mais recentemente, não tivemos no século XX envolvidos numa Guerra Mundial e numa Guerra Colonial? Não participamos nós, mesmo actualmente, em missões de paz, que mais não são que gerir ambientes de guerra?
O que parece que vários estudiosos, como o colega que escreve este artigo neste Blog, parecem cada vez mais encontrar provas que o ambiente de guerra frequente vem de muito longe e será certamente uma das forças motores da evolução social, científica e cultural da humanidade, embora por razões morais prefiramos não acreditar nisso, mas se fossemos extraterrestres a estudar e caracterizar pela primeira vez a nossa espécie (e analisando-a ao longo da nossa história), em vez de sermos classificados de Homo sapiens seriamos talvez Homo bellator ou algo do género!

Com os melhores cumprimentos

Luís Bravo Pereira

Anonymous said...

E ainda há quem tenha dúvidas se o Homo sapiens neanderthalensis se extinguiu ou não por acção de conflito com os nossos antepassados de então... eu não tenho dúvidas, apenas acho que ainda não se encontraram provas suficientes que sustentem essa tese...
se somos assim tão belicosos entre membros da nossa própria espécie, o que faríamos com indivíduos que aparentavam diferenças mais significativas e perceptíveis como eram os Neandertais?!

Luís Bravo Pereira

Numa terra lá distante said...

Quanto ao neanderthalensis espero colocar mais informação no futuro, mas também penso que foi vitima do bellator.
Infelizmente a guerra sempre fez parte das sociedades estatais, alguns autores até teorizam que foi a guerra que levou ao aparecimento dos estados.
Agora temos que tentar perceber o que se passou na Pré-História com as sociedades pré-estatais (portanto 99% do caminho do Homem).
Será que o Homem é naturalmente violento?
Quando é que apareceu a guerra?
Será que a guerra é responsável pelo tipo de sociedade em que vivemos?
Que funções teve e tem hoje a guerra?
As respostas podem ser impossiveis de alcançar, mas se não discutirmos estas questões os senhores da guerra vão continuar com as desculpas do costume: a guerra pela liberdade, pela civilização, contra o mal, contra o terrorismo,.....
Era interessante perceber o que é que os militares portugueses estiveram a fazer no Afeganistão, por exemplo.

Manuel de Castro Nunes said...

Este meu comentário estrutura-se em torno de dois tópicos.
Primeiro, devo prestar o meu reconhecimento à diligência e, talvez, temeridade, com que Luís Lobato Faria abre, sem preconceitos, um debate sobre um tema tão complexo. explicitando de forma tão clara as suas motivações e assumindo as consquencias que daí podem advir, com expressa naturalidade. Não concordando provavelmente com todas as deduções que dela quer extrair, a documentação que reúne e divulga constitui talvez na arqueologia portuguesa o sentido de uma ruptura. Pretendo frncamente intervir de forma estruturada neste debate, que espero não se vir a transformar numa das triviais disputas sem conteúdo, que se tornaram recentemete tão comuns.
Depois, surpreende-me francamente o cmentário do Caro Professor Vitor Oliveira Jorge. Conheço o Professo Vitor Olveira Jore desde 1972, em que foi, em Angola, meu professor da cadeira de Pré-História, eu talvez o mais rebelde dos seus alunos.
O Professor Oliveira Jorge aprecia-me então como o pecursor e arauto de profundas alterações de paradigma, na abordaem de cruciais questões axiais de paradigma na epistemologia do pensamento disciplinar. Muito vinculado então ao pensamento neo-estruturalista e funcionalista, acompanhei sempre atentamente o seu itinerário, o aprofundamento do seu pensamento e a transversalidade ds matérias que fez verter sobre o exercício da investigação arqueológica.
O Professor Oliveira Jorge é um ignorante retórico. Fica-lhe bem, é um ponto de partida com elevado valor científico, desde que não o iniba de, com mais ou menos ignorância, presumida ou real,ignorantes somos todos nós, sobre um tema de tão elevado valor cultural, social e epistemológico.
Espero, sinceramente, uma intervenção mais incisiva e estruturada da sua parte.

Um abraço.

Manuel