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Este Blogue é um estudo da Associação Projecto Raia Alentejana e tem como objectivo a discussão da violência em geral e da guerra na Pré-História em particular. A Arqueologia da Península Ibérica tem aqui especial relevo. Esperamos cruzar dados de diferentes campos do conhecimento com destaque para a Antropologia Social. As críticas construtivas são bem vindas neste espaço, que se espera, de conhecimento.

Guerra Primitiva\Pré-Histórica
Violência interpessoal colectiva entre duas ou mais comunidades políticas distintas, com o uso de armas tendo como objectivo causar fatalidades, por um motivo colectivo sem hipótese de compensação.


Saturday, 25 April 2009

A frequência

por Luis Lobato de Faria

A frequência com que a guerra surge numa sociedade permite determinar se esta tem um papel na sua cultura ou se é um acontecimento esporádico.
Keeley (1997, p. 28) refere três estudos, entre várias culturas etnográficas e históricas, com sistemas não-estatais e estatais, por todo o mundo, que observam a frequência da guerra.
No primeiro Otterbein (1989, p. 21, 143, 144 e 148) estudou 50 sociedades de diversos tipos e chegou à conclusão que em apenas cinco sociedades a guerra não era frequente ou não existia mesmo. Destes cinco grupos, quatro podem ser considerados como refugiados de conflitos anteriores que vivem agora em isolamento. Temos um total de 90% de sociedades em que a guerra é frequente.
Num segundo estudo Ross (1983, p. 179, 182 e 183) observou 90 sociedades de diversos tipos, aqui doze delas raramente ou nunca entravam em guerra. Destas doze, seis encontram-se sobre administração estatal, e três estão em total isolamento. Um total de 87% de sociedades está em guerra frequentemente.
No terceiro estudo Jorgensen (1980) recolheu dados de 157 sociedades tribais e bandos de índios norte americanos, só sete destas sociedades não realizaram ou sofreram raids. Temos um total de 95% de sociedades onde os raids são frequentes.
Keeley (1997, p. 29-33) aponta algumas razões que justificam a existência de sociedades pacíficas nestes estudos e que escondem frequências de guerra mais elevadas no passado: podem estar em isolamento geográfico que resulta por vezes de uma fuga ou derrota militar, podem ser minorias étnicas administradas por estados ou que foram pacificadas pelos estados. Estas razões podem esconder uma frequência de guerra mais elevada no passado. Existem sociedades não estatais consideradas pacíficas por não terem grande frequência de guerra, mas que possuem taxas de homicídio muito elevadas, o que esconde formas de guerra primitiva (Keeley, 1997, p. 29).
A frequência torna-se assim uma das variáveis de maior importância no estudo da guerra. Otterbein (2004, p. 81-90) usa a frequência de guerra em vários dos seus estudos, cruzando esta variável com tipos de sociedade, tipo de economia, tipos e formas de guerra, dependência da caça ou da recolecção, etc. Os dados deste autor apontam para uma grande frequência de guerra com a caça de grande porte do final do Paleolítico, esta frequência decresce com os primeiros agricultores e volta a crescer já com os primeiros estados formados (Otterbein, 2004, p. 218-225).
Quesada Sanz (1997, p. 34-35) descreve a frequência da guerra nos estados clássicos: Atenas (no seu período clássico) nunca teve mais de dez anos sem guerra e esteve em guerra dois de cada três anos, Roma (de VII a.C. até Augusto) só em duas ocasiões esteve sem guerra. Este autor demonstra que uma elevada frequência da guerra não permite que a paz ganhe uma autonomia conceptual, define-se apenas como ausência de guerra.
Frigolé Reixach (1988, p. 76) aponta os estudos de Velzen e Wetering (1960), em que os grupos fraternos locais e a patrilineariedade constituem as variáveis mais significativas em relação à frequência da guerra (ideia que Otterbein desenvolveu a partir de 1968). De novo a importância da variável frequência.
Keeley (1997, p. 85-188, 202, 173-183) conclui que a guerra é frequente em todos os tipos de sociedade, sendo mais frequente em sociedades não estatais e menos frequente em sociedades de bandos e caçadores-recolectores. As formas de guerra e tipos de sociedade encontram-se descriminadas nos gráficos apresentados pelos autores.


Referências
FRIGOLÉ REIXACH, Juan; ed. (1988) – As raças humanas. Resomnia Editores.
KEELEY, Lawrence (1997) - War before civilization: The myth of thepeaceful savage. Oxford: Oxford University Press.
OTTERBEIN, Keith F. (2004) – How war began. College Station: Texas A&M University Press.
QUESADA SANZ, Fernando (1997) – Aspectos de la guerra en el mediterráneo antiguo. In Garcia, J. A.; antona del vale; eds – La guerra en la anteguedad: una aproximación al origen de los ejércitos. Madrid: Ministerio de Defensa. p. 33-52.

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